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Zé é um brasileiro como outro qualquer

Zé é um brasileiro como outro qualquer. Talvez Zé nem mesmo se chame Zé. Ele pode chamar-se Antônio, João, ou mesmo ter outros nomes menos comuns, tais como Tarcísio, Robson, Ednaldo.

O nome do Zé não é importante. Aliás, peço que você não pense nem associe Zé com nenhuma dessas analogias comuns (Zé Mané, e por aí vai). Na minha opinião, Zé é tudo, menos mané.

Zé possui uma esposa. Aliás, uma esposa e uma filhinha. Zé é feliz e se preocupa com as duas. Trabalha para sempre conseguir alimentá-las, trabalha pra satisfazer as necessidades das duas. Às vezes consegue, às vezes não. Às vezes está feliz, às vezes está triste, às vezes se sente vencedor, às vezes derrotado.

A esposa do Zé é bonita, bastante magra, olhos pretos e fundos. Cabelos pretos abaixo do ombro, vestida de forma humilde. Atenciosa com a filha, observadora, uma boa mãe.

A filha do Zé é uma graça. Pequena, de uns 2 ou 3 anos. Cabelos claros (talvez herdados do Zé), olhinhos pretos iguais aos da mãe. Alegrinha, espevitada, pouco falante, mas muito meiga. A filhinha do Zé quer jantar. “Linguiça”, diz ela à mãe.

O Zé é humilde. Tem fala mansa e baixa, o corpo encolhido, como que para parecer menor. Reação essa que, aliás, herdamos dos animais. Eles a adotam quando querem parecer inofensivos diante de uma grande ameaça. Às vezes um animal também tenta parecer maior pelo mesmo motivo, mas há casos e casos.

O Zé é vigia de carros. Se aproxima de mim e pede para que eu pague um prato de comida para a esposa. Fica meio surpreso quando pergunto se ele também quer comer. O Zé aparentemente já perdeu boa parte da sua fé nas pessoas. Espero sinceramente que não tenha perdido nem um pouco da sua fé em Deus.

Pergunto à esposa do Zé se eles realmente preferem levar a comida ou comer ali mesmo no restaurante. Percebo a vergonha deles, percebo o quanto a sociedade os deve ter estigmatizado. O Zé e a esposa dormem na rua com a filhinha. Percebo pelo colchão imundo atrás deles.

A filhinha do Zé, embora tímida, é bem decidida quando pergunto o que querem comer. “linguiça”, dispara, sendo seguida pelos pais.

Os outros clientes me observam pelo canto dos olhos. Improvável conseguir definir o que se passa na mente de cada um. Percebo olhares de piedade, olhares de reprovação… Às vezes percebo que caridade nem sempre é um gesto muito admirado. Mas percebo também olhares de aprovação. Aliás, a moça do caixa tinha o maior deles. Gostei dela.

A moça do caixa é simpática. Peço dois sanduíches, um pra mim e um para um amigo que me acompanhava, e dois pratos de comida com linguiça frita, conforme prontamente ordenado pela filhinha do Zé. Ordens são ordens.

O pedido demora um pouco para sair. A esposa do Zé senta-se na cadeira mais externa da varanda do restaurante. Percebo que o gerente a observa de vez em quando. Ele também olha pra mim com uma cara de bravo. Percebo que gosto de confusão. Deveria não gostar. Talvez pelo meu tamanho ele deixe pra lá.

O pedido finalmente sai. A filhinha do Zé ergue os braços e comemora: “Êêêêêê”, em uma onomatopéia carregada de toda a sua criancice, de toda a sua meninice. Gosto da filha do Zé. Acho o Zé um cara bacana, acho a mulher do Zé uma boa mãe.

A filhinha do Zé acaba comendo mais do que a mãe. Me sinto meio culpado por não ter pedido um outro prato. O Zé come de costas para o restaurante, provavelmente para se livrar dos olhares de reprovação que algumas pessoas dirigem a ele. A esposa do Zé olha apenas para a filha, preocupada com que ela se alimente direito.

Termino meu lanche. O Zé de vez em quando se levanta pra receber um trocado dos donos dos carros que ele estava vigiando. Alguns pagam, outros saem sem nem mesmo baixar o vidro. Sinto pena do Zé. Mas sinto que não devo ter pena do Zé. O Zé não quer que tenham pena dele. O que ele quer é que respeitem ele. Que lhe dêem o direito de alimentar a esposa e a filha, de dar a elas tudo que elas possam precisar.

Chego perto e despeço-me do Zé. Olho para a carinha feliz da filhinha do Zé. A mãe, sem graça, pede-me dinheiro, deixando claro, porém, que o fazia pela necessidade. Percebo em suas palavras cautela, quando diz: “eu sei que você já pagou o nosso jantar, mas será que poderia me dar um dinheiro pra comprar fraldas pra minha filha?”

Dou algum dinheiro (vinte reais, pra ser mais exato). Pra falar a verdade já estava com o dinheiro na mão e ia dá-lo antes dela pedir. Muitas pessoas pensariam ser esse ato por parte da esposa do Zé um tanto quanto egoísta ou mesmo ingrato. Eu não penso assim. Entendo a esposa do Zé. Olho alegre para a filhinha do Zé, enquanto ela dá tchau para o “tio”, conforme diz a mãe: “dá tchau pro tio”. Ganhei uma bela sobrinha. Abençôo aos três e vou-me embora.

Já dentro do carro, indo para a universidade, imagino como será a vida do Zé. Uma vida de vitórias, de derrotas, de pouco dinheiro. Não muito diferente da de outros tantos por aí. Claro que a vida do Zé tem um agravante, afinal ele não tem onde morar. Peço a Deus para que o Zé sempre encontre alento e sempre seja auxiliado quando preciso. Mas, mais que isso, que o Zé saia dessa situação. Que ele possa dar para a sua esposa o belo vestido que ela quer. Que ele possa dar à sua filha a boneca que anda que ela tanto pede. Que ele possa se dar o carro zero que tanto quer.

Lágrimas não correm do meu rosto. Não estou triste. Sinto o coração leve. Sinto uma respiração recompensadora. O ar infla meus pulmões e, não sei o porquê, me faz também inflar de orgulho.

Ganhei uma bela sobrinha.

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